Morro Dois Irmãos

De Dicionário Livre de Geociências


Índice de conteúdo

Apresentação

Este parque situa-se na encosta do morro de mesmo nome. É administrado pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente.

Com área de 25 hectares, este parque é um belo exemplo de recuperação de uma área de encosta, outrora tomada quase que totalmente pelo capim colonião (Panicum maximum), uma gramínea africana, introduzida no Brasil no período colonial e responsável pela rápida propagação dos incêndios frequentes nas encostas cariocas nos meses de estiagem (inverno), período que esta gramínea se torna seca devido à falta d'água e os focos de incêndio se multiplicam devido à ação humana.

Criado em 1992, projeto do paisagista Fernando Chacel, está hoje com a vegetação em estado adiantado de recuperação, pois o capim foi dominado e não consegue mais se desenvolver devido à sombra da vegetação arbórea ali plantada. O acesso se dá pelas Ruas Aperana e Avenida Visconde de Albuquerque, no final do Leblon. O parque é dotado de estacionamento para cerca de 40 carros, banheiros masculino e feminino e parquinho infantil.

Várias linhas de ônibus fazem ponto final próximo a este parque, o que facilita o seu acesso a pedestres, que poderão à medida que sobem, caminhando, observar a variação da geologia da área e os pontos descritos neste roteiro.

Linhas de ônibus que levam ao local: 432, 433, 434, 512, 574.

Recomendo este Parque aos professores de Ciências, Geografia, Biologia, Geologia, de escolas situadas na Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro. Aqui poderão passar algumas horas agradáveis, numa verdadeira aula prática sobre geologia e meio ambiente.

Aos interessados em levar seus alunos, a única recomendação é quanto ao cuidado com os carros que sobem ou descem, pois a rua é íngreme, estreita, de mão dupla e com várias curvas, diminuindo a visibilidade dos motoristas.

Faço esta recomendação por que este roteiro está baseado numa caminhada a ser feita a partir da Avenida Visconde de Albuquerque até o último mirante do Parque. É possível subir de ônibus, mas neste caso não dá para ir inspecionando o que aqui está exposto.

Há vários mirantes, dos quais se pode ter variadas visões da Lagoa Rodrigo de Freitas, do Corcovado, das praias da Zona Sul e das ilhas Cagarras. Próximo à sede do parque pode-se admirar esculturas de aço do mestre Oscar Niemeyer, bordejando um lago artificial com ninfeas, papiros e bomélias.

No mapa abaixo está assinalado em vermelho, ao lado da Avenida Visconde de Albuquerque, o acesso ao Parque.

Mapa do Leblon

Introdução

Foto: E. Zimbres Mapa do Parque do Penhasco Dois Irmãos Os pontos descritos estão assinalados
Foto: E. Zimbres
Mapa do Parque do Penhasco Dois Irmãos
Os pontos descritos estão assinalados



Observações sobre o Roteiro

No mapa abaixo estão assinalados os pontos descritos neste roteiro. Alertamos que os pontos 1 e 2 ficam fora da área do Parque. São pontos de difícil acesso e situam-se no costão rochoso, abaixo do Mirante do Leblon. Esta dificuldade é relativa. Alunos com idade superior a 15 anos não devem ter dificuldade de visitá-los sob a supervisão de um adulto treinado e cuidadoso. As rochas que afloram nestes pontos são as mesmas que se vê no ponto 5, dentro do Parque, só que no ponto 5 elas se encontram muito intemperizadas. A visita ao pontos 1 e 2 é interessante para o aluno observar a rocha sã e depois poder visualizá-la totalmente alterada.

Caso não se consiga ir aos pontos 1 e 2, cerca de 50 metros a jusante do ponto 5, ao lado da pista, há um matacão desta mesma rocha, em estágio inicial de alteração. Sua inspeção pode ajudar a fazer a comparação entre a rocha sã e alterada.

Os alunos devem ser aconselhados a irem calçados com tênis. Sandálias e chinelos são contra-indicados por não darem firmeza aos pés, podendo causar acidentes.



Linhas gerais da Geologia do Estado do Rio de Janeiro

As rochas mais comuns nesta região foram foram formadas há cerca de 600 ma (milhões de anos atrás), quando ocorreu o encontro da placa tectônica africana com a sul americana. A colisão destas duas placas levou à estruturação de uma grande cordilheira, com altitudes médias de 5000 metros, a exemplo dos Alpes e Himalaia que também são cordilheiras originadas pelo encontro de placas continentais.

No encontro destas placas, foram criadas as condições de pressão e temperatura para modificar (metamorfosear) as rochas ígneas, sedimentares e metamórficas aí existentes. Os minerais e estruturas geológicas produzidas neste choque tectônico se posicionaram na direção Nordeste-Sudoeste, perpendicular às direções de maior esforço compressivo, que foi, de uma forma geral, Noroeste-Sudeste.

No final deste encontro de placas tectônicas, ao redor de 550 ma, as extremas condições de temperatura e pressão reinantes em profundidade, levaram à fusão parcial das rochas locais, gerando magmas, que deram origem a rochas graníticas, a maioria na forma de corpos tabulares. Um exemplo espetacular desta atividade é o corpo granítico que capeia a Pedra da Gávea, corpo este responsável pelo formato de topo achatado desta montanha.

Após o término do movimento de encontro de placas, a cordilheira recém formada passou a estar predominantemente sob a ação destruidora da erosão, sendo paulatinamente arrasada. À medida que isto acontecia, a crosta local foi sendo soerguida para compensar o equilíbrio isostático. Este movimento de ascensão permitiu que rochas que estavam a profundidades de 15 km, fossem expostas à superfície, tal como as vemos agora. O continente originado pela junção destas duas placas recebeu o nome de Gondwana.

Há cerca de 150 ma a crosta continental, então consolidada, começou a se romper devido a um movimento contrário ao que levara ao surgimento do Gondwana. Esta ruptura iniciou pelo sul, e paulatinamente deu origem aos continentes Sul Americano e Africano. No local da separação surgiu o Oceano Atlântico. Estes dois continentes até hoje estão se separando a uma velocidade de alguns centímetros por ano, e à medida que isto acontece, o Atlântico se alarga.

A Serra do Mar e a Mantiqueira, representam, hoje, o que sobrou daquela antiga cordilheira e as rochas que naquela época formavam suas raízes, hoje estão expostas à superfície devido à erosão e ao decorrente soerguimento provocado pela compensação isostática.

Toda esta herança geológica está impressa nas rochas, tal como podemos ver nas rochas do Rio de Janeiro.




Geologia da área

Neste parque podem ser observados as seguintes feições geológicas:

Rochas

Gnaisse facoidal

Autor: Eurico ZimbresPontos 1,3,4 e 7.Gnaisse facoidal(Augen gnaisse)
Autor: Eurico Zimbres
Pontos 1,3,4 e 7.Gnaisse facoidal(Augen gnaisse)




Gnaisse facoidal ou Augen gnaisse, é um gnaisse de granulometria grosseira, com feldspatos elípticos de tamanho centimétrico orientados preferencialmente. Os outros minerais constituintes da rocha, no geral quartzo, biotita e magnetita, se agrupam em fitas que contornam os feldspatos. O termo facoidal vem do grego, phakoeidés = lenticular, em referência ao formato elíptico ou lenticular dos feldspatos. Da mesma forma o termo augen vem do alemão e significa "olhos", em referência ao formato elíptico dos feldspatos. Esta rocha é muito comum na cidade do Rio de Janeiro, sendo a principal rocha constituinte do Morro Pão de Açúcar. Sua homogeneidade química e as relações de contato com os outros gnaisses da área, principalmente os de origem sedimentar, indicam que o gnaisse facoidal é de origem ígnea, provavelmente formado pelo metamorfismo de um batólito de granito sinorogênico, há cerca de 600 Ma.

Granulito

Autor: Eurico ZimbresPonto 2. Granulito
Autor: Eurico Zimbres
Ponto 2. Granulito



Granulito: Rocha metamórfica formada em alta pressão e temperatura, em condições anidras, caracterizada por uma textura granoblástica ou fraca foliação. Mesmo quando apresentam textura granoblástica, os granulitos possuem orientação metamórfica dada pela orientação preferencial do eixo óptico dos minerais, principalmente quartzo. Quando foliados, esta foliação é difícil de ser observada pela ausência de minerais placoides como as micas, apesar de ser comum a disposição dos cristais de quartzo em agrupamentos alongados (fileiras, fitas), disposição esta realçada nas superfícies intemperizadas (vide foto). Os minerais comuns em granulitos são os anidros: feldspatos, quartzo, piroxênios, granadas, entre outros

Aplito

Autor: Eurico ZimbresPonto 1.Aplito cortando o Kinzigito
Autor: Eurico Zimbres
Ponto 1.Aplito cortando o Kinzigito



Corpo de pequena espessura, filonar, com textura fina e sacaroidal, hololeucocrático, composto em geral quase que totalmente por feldspato e quartzo. A textura dos aplitos é tão característica que deu origem à ao termo "textura aplítica", que é uma textura onde os minerais são diminutos mas ainda visíveis a olho nu e equigranulares. O aplito mostrado nesta foto não sofreu ação do metamorfismo, tendo sido injetado num perĩodo pós-tectônico, quando as forças de compressão já haviam deixado de agir. Calcula-se que estas rochas tenham entre 450 a 500 Ma.




Pegmatito

Autor:Eurico ZimbresPegmatito cortando o gnaisse facoidal

Autor:Eurico ZimbresPonto 3. Pegmatito cortando o gnaisse facoidal
Autor:Eurico Zimbres
Ponto 3. Pegmatito cortando o gnaisse facoidal


São rochas onde os minerais atingem grandes dimensões, em geral maiores que vários centímetros. Em geral são corpos tabulares (dique) composto por feldspato, mica e quartzo. Os pegmatitos podem se formar a partir de soluções silicosas residuais no processo de resfriamento de magmas graníticos, ou a partir de soluções silicosas produzidas pela fusão parcial (anatexia) de rochas já existentes. Para estes últimos tem sido dada a denominação de pegmatitos anatéticos, que no geral, quase não contém minerais raros, tendo uma composição meramente granítica, isto, com feldspato e quartzo e alguma mica muscovita e biotita. Os diques e veios pegmatitos encontrados na cidade do Rio de Janeiro, tais como os presentes no Leblon, parecem ser de origem anatética, pois são as últimas rochas ígneas a se formarem neste episódio tectônico. As idades isotópicas encontradas para estes corpos variam de 400 a 500 Ma. No pegmatito mostrado neste ponto pode-se observar grandes cristais de feldspatos, com suas características clivagens; alguns aglomerados de biotita (mica preta) e muito pouco quartzo. Pode-se observar também que este corpo é quase vertical e corta discordantemente a foliação do gnaisse facoidal. No ponto 2 também pode-se observar pegmatito granítico cortando o granulito.


Quartzito

Autor:Eurico ZimbresPonto 8. Sequência metasedimentar.Intercalação de quartzito e rochas feldspáticas, agora totalmente intemperizadas
Autor:Eurico Zimbres
Ponto 8. Sequência metasedimentar.Intercalação de quartzito e rochas feldspáticas, agora totalmente intemperizadas



Neste ponto pode-se observar a presença de uma sequência onde camadas de quartzito maciço, são intercaladas por uma rocha muito feldspática, agora transformada em um solo argiloso semelhante ao dos pontos 5 e 6 e provavelmente com a mesma composição mineralógica do granulito não alterado encontrado no ponto 2. Este quartzito também pode ser visto, em possante afloramento, em corte na Avenida Niemeyer, logo abaixo do Parque.

A riqueza em alumínio dos granulitos, como se pode inferir pelo seu alto teor de feldspato e granada, bem como a presença dos leitos de quartzito neste ponto, apontam para uma origem metassedimentar para todo este pacote, excetuando o gnaisse facoidal, que é ortometamórfico e os pegmatitos e os aplitos, que são ígneos. A rocha que deu origem ao gnaisse facoidal certamente foi uma intrusão ígnea na sequência (meta)sedimentar. Hoje esta sequência metassedimentar pode ser interpretada como um teto (roof pendant) preservado da erosão e que jaz sobre uma grande massa intrusiva, transformada em gnaisse facoidal pelo metamorfismo de alto grau ocorrido há 600 milhões de anos atrás.




SOLOS

No Parque do Morro Dois Irmãos ocorrem basicamente dois tipos de solos residuais: um arenoso, originado da decomposição dos gnaisses facoidais e outro bem argiloso originado da decomposição do granulito. A diferença entre ambos é marcante, permitindo separar a área de ocorrência de cada uma destas rochas.




Solo arenoso

Autor:Eurico ZimbresPonto 4. Solo formado sobre  o gnaisse facoidal
Autor:Eurico Zimbres
Ponto 4. Solo formado sobre o gnaisse facoidal


Neste local pode ser observado um perfil completo de solo. Na parte superior um solo bem desenvolvido, arenoso e escuro devido à presença da matéria orgânica. À medida que se aprofunda vão aumentando os restos de cristais de feldspatos em variados estágios de alteração. O grãos de quartzo encontrados neste solo são bem irregulares, com vários milímetros de tamanho, podendo chegar a quase um centímetro.

Estes feldspatos, em função do intemperismo químico, se tornaram quebradiços e esbranquiçados. Podemos observar que se clivam facilmente sob a pressão exercida por nossos dedos, o que não acontece com feldspatos pouco ou nada alterados.

Mais abaixo pode-se observar que aflora a rocha, um gnaisse facoidal, mas que pelo aspecto dos cristais de feldspatos esta rocha já está bem alterada, apesar da ainda guardar um certa coesão.









Solo argiloso

Autor:Eurico ZimbresPontos 5 e 6. Regolito formado a partir do kinzigito
Autor:Eurico Zimbres
Pontos 5 e 6. Regolito formado a partir do kinzigito

Aqui pode-se observar um solo residual "in situ" desenvolvido a partir da alteração do granulito. A altura do perfil é de cerca de 6 metros. Na parte superior temos uma camada não muita espessa de um solo superficial bem desenvolvido, avermelhado. No entanto a maior parte do corte é composta por um material residual totalmente alterado mas que ainda guarda as estruturas da rocha original: foliação, pequenos veios pegmatíticos e de quartzo.

A estabilidade do corte é bem grande como se pode ver pela sua verticalidade. Esta estabilidade é em grande parte devida à composição argilosa do terreno. Os finos pegmatitos, já totalmente alterados, se apresentam como uma massa branca de caulinita, como se pode ver nas fotos acima.

A composição mineralógica deste regolito reflete a composição mineralógica do granulito, estando o feldspato totalmente alterado em argilas. A pequena circulação de água subterrânea no solo manteve a cor original branca da caulinita originada da alteração dos feldspatos dos veios pegmatíticos. No restante da rocha o caolim foi todo tingido de vermelho pelos óxidos e hidróxidos de ferro produzidos pela alteração (intemperismo) dos minerais máficos (magnetita, biotita, granada). Determinação laboratorial deram a seguinte composição para este regolito:

  • argila= 75%
  • quartzo= 23%
  • magnetita=2%

Os grãos de quartzo possuem granulometria ao redor de 1 mm e apesar da forma irregulares, são todos aproximadamente do mesmo tamanho.



Aspectos ambientais

Com área de 25 hectares, este parque é um belo exemplo de recuperação de uma área de encosta, outrora tomada quase que totalmente pelo capim colonião (Panicum maximum), uma gramínea africana, introduzida no Brasil no período colonial e responsável pela rápida propagação dos incêndios frequentes nas encostas cariocas nos meses de estiagem (inverno), período que esta gramínea se torna seca devido à falta d'água e os focos de incêndio se multiplicam devido à ação humana.

Este parque, criado em 1992, projeto do paisagista Fernando Chacel, está hoje com a vegetação em estado adiantado de recuperação, pois o capim foi dominado e não consegue mais se desenvolver devido à sombra da vegetação arbórea ali plantada.

Dentre as espécies botânicas nacionais utilizadas no reflorestamento temos: quaresmeiras (Tibouchina sp.), guapuruvu (Schizolobium parahiba), paineira das pedras (Ceiba erianthos), palmiteiro (Euterpes edulis), ipê-amarelo (Tabepuia spp.), embaúba-prateada (Cecropia hololeuca), pau-brasil (Caesalpinia echinata), angico-vermelho (Anadenanthera macrocarpa), sombreiro (Clitoria fairchildiana), aroeira-vermelha (Schinus terebenthifolius), oiti (Licania tomentosa), jacaré (Piptadenia gonoacantha), entre outras.

Dentre as exóticas introduzidas pelo homem temos: leucena (Leucaena spp), jamelão (Eugenia jambolana), jaqueira (Artocarpus spp.) A recuperação da vegetação arbórea propiciou a implantação de uma rica variedade faunística, em especial de aves. No local o visitante munido de um binóculo poderá observar cerca de 80 espécies de aves de pequeno porte.


Contenção de encostas

Nesta excursão também podem ser apreciadas diversas obras de contenção de encostas: muro de arrimo por gravidade, contenção ancorada por tirantes e tratamento superficial de encosta com cimento e vegetais.


*Voltar para Roteiros geológicos

Ferramentas pessoais